Na rota do grafite

O grafite faz parte da composição de cada região da capital paulista

Por Bianca Gabriela, Daniela Damasceno, Mirelly Gusmão, Tiago Souza e Valeria Contado

Era uma tarde comum. Dia de semana. Por um milagre, consegui um lugar no trem para sentar. Do lado de fora, o calor emanava. O sol das dez começava a ganhar seu lugar no céu azul da capital. Dentro, o ar condicionado mantinha a temperatura agradável. Logo, no entanto, sentiria aquele calor humano do Expresso Leste, que saí da Luz em direção à Guaianazes. Sentei-me perto da janela para poder admirar a vista.

Nos minutos naquele vagão, aquele caminho passeava diante dos meus olhos. Vez ou outra, meu pensamento viajava pelos meus trabalhos da faculdade. Seria uma longa jornada até o final do ano. O trem foi enchendo, ganhando mais vida do que quando eu entrara. Um senhor alto, roupa social, segurava seu paletó no colo. Deu lugar a uma mulher grávida que também entrou. Um vendedor ambulante com rosto pintado de prata me ofereceu amendoim.

Pela janela, de repente, algo saltou aos meus olhos. As paredes passam rapidamente do lado de fora. Mas as cores são tantas que prendem minha atenção. Reconheço a Radial e começo a perceber formas. Personagens oprimidos ganham vida nas paredes, lado a lado com letras de um alfabeto que eu não conheço. Letras coloridas e rostos contam uma história e me convidam a conhecer mais e mais essa cidade.

Cauê Maia e a democracia cultural

A origem do grafite faz parte de uma discussão complexa envolvendo praticantes e estudiosos. Algumas explicações associam esse nascimento às pinturas rupestres e ao muralismo mexicano, como aborda o livro “O que é Graffiti” de Celso Gitahy. No entanto, uma visão mais popular traça um paralelo com o surgimento do hip-hop nos Estados Unidos, como sustenta Regina Novaes em “Hip-hop: o que há de novo?”.

No Brasil, essa cultura começou a se popularizar no final do século XX, se fortalecendo com a pichação e ganhando novas fórmulas com o passar dos anos. O estêncil é uma delas. A técnica consiste em utilizar um molde, normalmente de papel ou papelão, com um desenho ou frase vazada, por onde se passa a tinta.

O artista Cauê Maia, do Coletivo Transverso, trabalha com intervenções poéticas no meio urbano e utiliza este recurso com frequência. Começou exclusivamente dessa forma e evolui para outros meios, como lambe-lambe, projeção luminosa, murais de azulejos e outros.

Suas obras são de caráter reflexivo, carregando o que sua fala calma e pausada transmite enquanto o corpo repousa sem gesticular muito. Quando conversa, passeia por diversas bifurcações em sua mente para complementar o assunto do qual se refere, dando espaço às experiências que adquiriu com o passar dos anos.

De maneira geral, as iniciativas da qual faz parte abordam considerações quanto aos sentidos de ser e existir em São Paulo, palco caótico onde a arte precisa repensar seu formato tradicional. Assim, o projeto Casa Rodante surgiu como uma tentativa de disseminação cultural. Foi um ateliê móvel montado em uma caminhonete que circulava pela Cracolândia três vezes por semana, levando as pessoas da região a programas como um cinema improvisado e um sarau.

Foram nesses momentos que o centro da cidade mostrou algumas de suas peculiaridades. Cauê conta como são comuns os momentos de aprendizado com os dependentes químicos ou pessoas em situação de rua, algo que subverte os valores sociais, como ele mesmo diz.

“Ele, que é visto por grande parte da mídia como alguém perdido, em algum momento se tornou um mestre. Enquanto eu, que tive oportunidade de fazer uma faculdade, estava na condição de aprendiz.”

São características como essa que o fazem compreender as diferenças entre as relações humanas em cada uma das partes da cidade, a depender de como a arte ou o público se expressa. Isso une as diversas tribos desse ambiente. “A cidade tem muitas ilhas, mas tem muitas pontes também.”

Leon ZnLovers: Um olhar sobre a Zona Norte

O grafite da Zona Norte possui um dos pontos que mais fortalece essa cultura em todo o estado: o Museu Aberto de Arte Urbana de São Paulo (MAAU-SP). Localizado entres as estações Tietê, Santana e Carandiru, ele se estende pelo percurso de 33 pilastras, pela Avenida Cruzeiro Do Sul.

Tanto no sentido bairro como no sentido centro, os desenhos do museu tornam o caminho de casa para o trabalho, escola ou lazer mais alegre e colorido. Todos são bem-vindos, uma vez que nada impede que o público se aproxime das obras expostas.

Leonardo Henrique, conhecido como Leon, começou a pintar em meados de 2008 e nunca mais parou. “Eu tinha 14, 15 anos. Na época da escola, andava de skate, pichava e o grafite acabou se tornando algo natural. Andava na rua que nem louco olhando para tudo. Pichação, grafite, skate, show de rap e reggae. Isso há 21 anos”. Uns dos principais desenhos de Leon, é o leão, por onde você passar na zona norte encontrará um de seus inúmeros grafites. De um jeito único, com muita personalidade, sua escrita nos muros se tornam desenhos.

Em 2010 surgiu ZnLovers, o coletivo surgiu no encontro de amigos, que se juntaram no intuito de promover os grafiteiros da zona norte de São Paulo. Esse crew (segundo o Educa mais Brasil, é um grupo de grafiteiros, são amigos que compartilham das mesmas ideias, que podem fazer as suas obras tanto em conjunto como individualmente), conta com duas diferentes gerações Zezão, Chivitz, Minhau e Marcone, Xoraz, Locones, Leon, Fabah, Ana K.

Sendo um dos integrantes do coletivo ZnLovers, Leon participou de vários movimentos, mas seu foco é na sua região de origem que é a zona norte, um dos movimentos que ganhou destaque na foi o museu aberto. Sendo um dos colaboradores da criação do 1° MAAU-SP (Museu Aberto de Arte Urbana), contando com a ajuda da Secretaria do Estado da Cultura e em parceria com o Metrô.

Tody One: o grafite como instrumento de mudança na ZL

Tody One é considerado uma estrela do grafite na zona leste. Seus desenhos ocupam a maior parte dos muros da região. Nisso inclui-se praticamente todas as paredes da estação de trem de Guaianazes, da Linha 11 Coral da CPTM.

Um de seus projetos de maior sucesso são as gelotecas – geladeiras que são grafitadas e posteriormente funcionam como bibliotecas. Cerca de 70 geladeiras já foram entregues. “O trabalho das gelotecas não é só meu. Várias pessoas contribuem para que o projeto permaneça de pé”, diz o grafiteiro. Tanto o eletrodoméstico quanto o livros que são colocados dentro, são frutos de doação.

Tody montou um percurso, que utiliza sempre que algum jornalista o procura para conhecer as geladeiras. Neste percurso, destacam-se a geloteca da OSC (Associação Izaias Luzia da Silva), a do Hospital Geral de Guaianazes, a instalada em uma esquina próxima a Diretoria de Ensino da região e outra, que se localiza na Praça Rua Pedro Silveira.

O grafiteiro percebeu, por meio do grafite, a importância política que a sua obra tinha. “Eu não tinha consciência política. Só depois eu percebi o poder que eu tinha na comunidade, a capacidade de chamar a atenção do poder público para as demandas da periferia”, reforça.

Um dos exemplos práticos da transformação por meio da arte se deu na Escadaria da Mirinha. As duas laterais do grande escadão dão acesso a inúmeras casas. Mas lá não havia corrimão. Uma das moradoras do local, Dona Mirinha, no auge dos seus 80 anos, sofria sempre que precisava descer os inúmeros degraus de lá. Tody, junto a mais um grupo de amigos, fez uma campanha de revitalização da escadaria. Isso atraiu turistas e, consequentemente, a atenção do poder público para a região. “Antes, aqui era ponto de tráfico. Depois da revitalização, o tráfico acabou”, celebra.

Homem negro, nordestino e morador da periferia, ele usa seus desenhos para transformar a história da região onde mora. As gelotecas foram responsáveis, inclusive, por melhorar os índices de leitura de Guaianazes. O grafiteiro também faz palestras em escolas, promove festivais de grafite e participa de campanhas de arrecadação de roupas e alimentos para a população carente.

O grafite da Zona Leste existe para preencher as demandas sociais presentes na região. Tais como o incentivo à cultura, que o próprio grafiteiro promove levando as gelotecas cheias de livros, e até mesmo, incentivando os jovens a conhecerem a arte.

Mag Magrela: grafite que vive

A Zona Oeste é cheia de desenhos. O Beco do Batman é apenas uma amostra dessa pluralidade artística. Carolyne Bárbara Maciel, conhecida como Mag Magrela, cresceu vendo essas obras estampadas nas paredes perto de casa. Sua primeira referência de arte foi o pai, que pintava telas com ela no colo. Depois vieram os grafites da “Vila Mada”. Seus olhos planavam pelos traços das Noturnas, Honesto, Bolota, e depois eles se tornaram os seus próprios traços.

Mag costuma dizer que filtra o que o mundo dá para ela. Seu instinto e a rua são suas inspirações para criar as personagens que conversam com quem passa por ali. “Você sente. Passa para o papel e depois passa para o muro. Eu filtro o que o mundo me deu. O momento que eu fico mais criativa, principalmente de palavras, é quando eu estou andando na rua”.

Pessoas vêm de todas as partes do mundo para apreciar a street art paulistana, e a Zona Oeste é um dos lugares favoritos dos guias turísticos. Segundo o Secretário de Turismo da cidade Junior Aprillanti, no artigo “A variedade e a força do Turismo de São Paulo”, publicado em junho de 2018, os paulistas recebem mais de 44 milhões de turistas por ano, o que representa cerca de 10% do PIB de todo o estado.

Mag explica a força do grafite na cidade e valoriza os artistas daqui. “São Paulo é um dos melhores lugares do mundo em relação a arte urbana, principalmente porque um artista preza muito pela diferença entre um e outro. A gente é misturado e vira-lata até nisso. O hip hop deixou aqui uma cultura e uma das ramificações foi o grafite. Daí o brasileiro vem e fala: perai, deixa eu fazer do meu jeitinho. E a gente faz de um jeito maravilhoso. Temos artistas incríveis”.

As periferias são grandes berços para o grafite, mas pouco exploradas por guias turísticos. Conheça uma rota alternativa para apreciar os grafites paulistanos

Além de obras como as de Mag, o grafite revitaliza lugares que antigamente se viam destruídos. A passarela Santa Marina na Água Branca, por exemplo, mudou o visual. Seus degraus, cinzentos e sujos, ganharam traços, cores e vida após três dias de trabalho, utilizando mais de 40 latas de spray. A designer Lanna Lourenço afirma que “o grafite é uma coisa atual, que sobe o conceito do lugar que está. Coloca cor numa cidade que é muito cinza”.

Esse tipo de atividade de revitalização se torna muito importante em lugares que, muitas vezes, não recebem atenção, ou até mesmo se tornam sombrios para quem passa. Lanna completa, dizendo que “as cores têm um significado de vida, dão um ânimo. Só o fato de ter uma cor no lugar faz com que as pessoas se sintam mais ambientadas”.

Raxa Cuca: Esperança na arte

Caminhando pela Zona Sul de São Paulo, vários desenhos apagam a paleta quase monocromática tradicional das paredes da região. São obras que democratizam a arte e transformam os ambientes por onde passam. É com esse ativismo social que trabalha Rodrigo Souza Dias.

Mais conhecido como Gamão Raxa Cuca, o artista é da cidade de Taboão da Serra. Sua ligação com o grafite iniciou desde muito pequeno, quando seu irmão contava histórias sobre essa cultura.

Desde então, grafitar tornou-se um estilo de vida e passou a colorir os muros da sua cidade. Para ele, esse estilo vai muito além das pinturas que faz. É uma mudança de vida que traz luz para as pessoas, perceptível quando pedem a ele desenhos que remetam as suas maiores paixões.

Em 2014, elevaria sua arte a outro patamar. Uma enchente invadiu todas as casas de rua onde mora. “Parecia que o furacão Katrina tinha passado por aqui. Minha casa ficou 1,40m embaixo de água”, lamenta Gamão.

A partir disso, juntou-se com vários amigos grafiteiros para criar o Grafite Contra Enchente, movimento onde um mutirão pinta as marcas deixadas pela água. O projeto totalmente independente ganhou cada vez mais respeito da comunidade. Em 2019 vai para a sua 5ª edição, chegando a ter até 300 artistas brasileiros e, algumas vezes, estrangeiros.

O evento é totalmente gratuito e não se restringe apenas aos desenhos para ajudar a região. “O grafite é o carro-chefe, porém incrementamos uma feira de economia solidária para que comerciantes do bairro possam vender seus produtos artesanais”, conta Rodrigo.

“Não existe grafiteiro sem mensagem para passar, são coisas que andam juntas umas com as outras, um modo de se expressar. Não! Se tiver separado não faz sentido, porque hoje não dá pra lançar qualquer trampo na rua”, finaliza Gamão.

Um tipo de arte que corta o cinza, transforma lugar de passagem em galeria a céu aberto, faz grande parte do público viver a rua de diferentes formas. O grafite faz parte da identidade de São Paulo e constrói uma história para cada zona da cidade.